• Karoline Meyer

Participando do "Giro di Italia" do Mountain Bike

Atualizado: 24 de Dez de 2019


A ultramaratona Brasil Ride, que é considerada pela midia internacional como o Giro de Italia do MTB, superou expectativas em sua 8a edição.
Percorremos 600km e subimos mais de 13.000metros durante sete dias, na terra do Descobrimento, entre Arraial d Ajuda e as montanhas do interior baiano de Guaratinga, perfazendo um tempo total acumulado de 37horas e 46minutos, sob condições extremas.

Neste ano estávamos mais treinados física e tecnicamente. Os treinos de mergulhos em apneia, os treinamentos de respiração, os treinos de ciclismo de Estrada com Diones Chinellato e os treinos de mountain bike com Robson Ferreira da GoTreinos foram uma excelente combinação para completarmos as etapas muito melhor do que o ano passado! Além disto, durante os últimos dias em casa, treinamos especificamente manobras em escadarias com a Flowripa Bike School do Rafael Waltrick somente para poder encarar a escadaria da 1a etapa do Brasil Ride.

Para sobreviver é preciso ter muito mais do que pernas e mente forte, é preciso coração e pulmão.

Confiram as etapas em detalhes:

1º dia - Prólogo em Arrail D Ajuda - 21km 330m de altimetria: prova de curta duração, mas cheia de expectativas para os dias seguintes, que faziam com que pensássemos muito nos riscos de acidente e agíssemos com muita cautela. A largada foi forte e eu sabia que iriamos encarar a longa escadaria da igrejinha de Nossa Senhora D’Ajuda com o batimento cardíaco perto dos 185bpm. E foi isto mesmo, passamos pelos fundos da Igreja e viramos para a longa escadaria com uma galera assistindo... foi dia de passar bonito pelo trecho, sem carregar a bike! Foi impressionante notar a diferença do solo do dia em que chegamos, apos uma chuva, as descidas estavam bem escorregadias... Por sorte, no dia da 1a etapa, não choveu e com o calor a terra drena e seca muito rápido.

Nosso tempo ao final da etapa: 1h14min04seg e a colocação 10 lugar.

2º dia - Ida para o acampamento em Guaratinga - 138 km 2.199 m altimetria:

Dia de deixar o mar e seguir para as montanhas!

Neste dia realizamos muito bem todo o percurso. Sabíamos que uma de nossas vantagens seria nossa passada nos locais mais planos e realmente deu certo, chegamos nas montanhas embalados e conquistamos o 6 lugar nesta etapa com o tempo de 6h36min29seg. Lá em cima o visual é lindo demais… Depois de lavar a bike e comer um delicioso açai, foi só descansar vendo o por do sol e as pedras gigantes de Guaratinga e se concentrar para os dias mais duros que estavam por vir.

3º dia - 74 km 2.559 m altimetria – Problema mecânico logo apos a largada… Uma pastilha de freio foi trocada e a roda mal colocada fez com que eu não conseguisse passar as marchas corretamente. Segui tentando, andando, fui parando para colocar a corrente que caia e dai vimos o problema. Perdemos um tempo precioso e seguimos tentando recuperar um pouco. Neste ano não foi o mesmo percurso do ano passado, mas ficou perfeito, talvez o melhor das sete etapas. desafiador e bem variado. Neste dia percebi que a escolha do grupo Eagle com 32/50 ajudou muito nas subidas íngremes. Alguns trechos eu lembrava do ano passado, que passei empurrando a bike, desta vez “zerei” muitos deles. Ainda assim me falta mais técnica, principalmente nas descidas. Acabamos a etapa em 6h08min30seg, 11 lugar.

Final de tarde você vai vendo quem chegou inteiro, quem já está muito debilitado, quem “comprou terreno”, quem se quebrou feio… vai batendo um cansaço que somente as horas de acampamento não resolvem para o descanso e recuperação. Mas a prova seguia e o dia mais duro ainda estava por vir.

4º dia - 100 km 3.090 m altimetria - 07h48m - Aqui começou a valer ainda mais a força de vontade… Acordei enjoada, um pouco desidratada e me forcei a comer no café da manhã. Tiago seguia firme. Na largada houve uma queda bem na minha frente, mas consegui passar sem problemas. O temido dia … com as subidas mais cruéis. A primeira hidratação não chegava nunca, precisei pedir água no topo de um dos morros. O corpo já não respondia muito bem aos comandos. A montanha das 7 curvas estava foi uma subida épica… Caiu uma chuva forte mas curta, que nos refrescou e fez aparecer um lindo arco iris, mas o pesadelo veio depois, a chuva criou uma camada de lama que prendeu nos pneus como cola e empurrar a bike foi algo insano… carregávamos uns 10kg extras de barro. Sem dúvida quem passou antes se deu muito bem neste trecho. Ainda assim recuperamos uma posição e retornamos para o 10lugar perfazendo 8h19min35seg.

5º dia - 130 km 1.974 m altimetria – Arrumar as malas e desfazer acampamento… Das montanhas para o mar!!!! A organização comentou no meeting que agora era só descer , mas a gente subiu muito para depois começar a descer… O momento mais dificil fpara mim foi perto das 13h00 no estradão esburaco de tal forma que não era possível desviar das crateras, o calor estava surreal. O posto de hidratação parecia um oásis no meio do deserto… Comia e bebia para sobreviver. Adentramos na mata do parque Pau Brasil , foram 20km com muitas poças e troncos. Numa destas travessias acho que bloqueei a suspensão e errei um salto. Acabei voando por cima do tronco e caindo com a bike. Levantei e segui, nem olhei o que havia acontecido nas pernas...

A mente estável tentando guardar energia e sofrer o mínimo possível.

Reagimos bem às dificuldades e fechamos a etapa em 7h36min09seg, mantendo nosso 10 lugar .

6º dia - 31,8 km - XCO - 564 m altimetria – 4 voltas: É o único dia em que as duplas podem se separar , valendo o somatório dos tempos. Alguns optam por dar somente uma volta e descansar um pouco mais, ainda que perdendo pontos caso as demais duplas façam mais voltas. . Cada volta não feita resultava na soma de 70minutos no tempo final.. Preferimos a segunda opção, fazer as voltas possíveis dentro do tempo regulamentar. Tiago realizou 3 voltas e eu 2 voltas

Meu machucado no joelho virou um ferimento que não curava mais pois todo o dia eram milhares de gravetos e mato que batiam nele... O jeito era proteger com esparadrapo e seguir adiante. Tiago também levou uma coroada na perna de um ciclista que caiu na sua frente... Fechamos o XCO com 4h14min00seg 11 lugar

7º dia - 73,5 km 1.041 m altimetria - Última etapa... Muito edema nas pernas, resultado da desidratação (hiponatremia leve) fazendo o corpo reter muita água, as pernas mal dobravam e eu parecia estar carregando pelos menos uns 5kg a mais! O hematoma grande do tombo do dia anterior já começava a dar sua tonalidade na perna. A largada foi sofrida... Qualquer subida era muito penosa sob um calor de 45ºC. Só fomos melhorando após uns 20minutos de prova. Percebi então que ainda estava bem para subir e procurei manter um ritmo. À essas alturas ia surgindo um medo de algo dar errado bem no fim da jornada. Seguia olhando para a kilometragem do computador e deduzindo quanto faltava, nem gel tomava mais, só queria chegar. Pelo bom tempo que vínhamos fazendo,mesmo que a bike quebrasse e tivéssemos que correr (como aconteceu no ano passado), ainda assim chegaríamos.

Faltando ¼ para a última etapa da ultramaratona encerrar... comecei a agradecer mentalmente por tudo, procurei curtir a última horinha de puro mountain bike que somente um evento como o Brasil Ride pode nos oferecer. Chegamos super bem, mantendo a distância dos demais concorrentes e com o tempo de 4h22min09seg perfizemos o Tempo total 37h46min46seg e conquistamos o título de Dupla Mista TOP 10 do Brasil Ride 2017 pelo segundo ano consecutivo!

Pedalar, comer e dormir por sete dias, sem se preocupar com mais nada, é um sonho que somente 500 privilegiados vivenciam durante a maior e mais dura ultramaratona de mountain bike das Américas.

Sigam nossas aventuras na bike

Karol https://www.strava.com/athletes/6639887

Tiago https://www.strava.com/activities/1320651407

Confira o playlist Karol e Tiago Brasil Ride

https://www.youtube.com/playlist?list=PLZoCkYNIs_v9cJRQ6eBgRyy3cSzseI4U_

Imagens: Sportograf / Juliano Augusto

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FOTOGRAFIA: Tiago J Silva | Zaira Matheus |  Martha Granville  |  Gabriel Rinaldi  |  Dan Burton | Marcos Villas Boas

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