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BONITO: MERGULHOS, LENDAS E HISTÓRIAS QUE VÃO PARA A TV

  • Foto do escritor: Karoline Meyer
    Karoline Meyer
  • há 10 horas
  • 11 min de leitura

Bonito é daqueles lugares que impressionam mesmo quem já teve a oportunidade de conhecer muitos destinos pelo mundo.

É um lugar onde a natureza não precisa de filtros para surpreender: a água é cristalina, a fauna está por todos os lados e cada experiência parece nos lembrar da dimensão, da força e, ao mesmo tempo, da delicadeza do mundo natural.


A viagem aconteceu por conta de um novo projeto para a TV, a série documental “Versus”, que vai abordar histórias de pessoas, seus desafios, conquistas e processos de superação, tendo o esporte e a natureza como parte dessa jornada.


E Bonito não poderia ser um cenário mais perfeito...

Foram vários dias de mergulho, aventura, descobertas, desafios e encontros com uma natureza exuberante.


Mais do que conhecer lugares extraordinários, foi uma oportunidade de colocar o corpo diante de novos desafios, testar limites e perceber que, muitas vezes, superar não significa simplesmente ir mais longe. Significa também aprender a respeitar o próprio ritmo, o ambiente e aquilo que está diante de nós.


RIO AZUL: UM AQUÁRIO NATURAL

No Rio Azul, a transparência da água transforma o mergulho em uma experiência quase surreal.

Você mergulha entre peixes e vegetação como se estivesse dentro de um enorme aquário natural.


E são justamente os detalhes que tornam tudo ainda mais fascinante. Entre as águas cristalinas, é possível encontrar diferentes espécies de peixes, como piraputangas, curimbatás e outros representantes da rica fauna aquática da região.


Para quem pratica apneia, estar ali é ainda mais especial.


Mergulhar em silêncio, controlar a respiração e simplesmente observar a vida acontecendo ao redor cria uma conexão completamente diferente com aquele ambiente.


É como se, por alguns instantes, o corpo deixasse de ser apenas um visitante e passasse a fazer parte daquele cenário.


Na superfície, tudo parece tranquilo.


Debaixo d’água, porém, existe um universo inteiro acontecendo...




MERGULHANDO FUNDO NA LAGOA MISTERIOSA

Aquele mergulho na Lagoa Misteriosa não começou quando entrei na água. Começou antes, no instante em que olhei para aquela profundidade e percebi que ali existia algo diferente. A água cristalina revelava um azul que parecia não ter fim e, ao mesmo tempo em que despertava curiosidade, impunha respeito.

Existe um chamado silencioso na profundidade. Para quem pratica freediving, talvez seja difícil explicar exatamente o que nos leva a descer. Não é apenas a vontade de chegar mais fundo. É a busca por uma experiência que acontece quando o corpo desacelera, a mente silencia e você passa a perceber cada detalhe de si mesmo.

Naquele momento, precisei confiar no treinamento, na técnica e, principalmente, nos meus próprios limites. E existe uma frase que resume muito do que aprendi: 40% é descer e 60% é voltar.


A descida pode ser fascinante. A profundidade chama, o azul se transforma, a superfície vai ficando distante e o silêncio toma conta de tudo. Mas o mergulho ainda não terminou. Na verdade, é na volta que a consciência sobre energia, técnica, segurança e limites se torna ainda mais importante.

O freediving ensina que a profundidade não deve ser encarada como uma disputa. Não existe vitória em ultrapassar um limite que o corpo ou a mente não estão preparados para sustentar. O objetivo não é simplesmente chegar mais fundo, mas saber descer e, principalmente, voltar com segurança.


Minha descida na Lagoa Misteriosa foi também um exercício de responsabilidade. Cada metro para baixo exigia presença. Cada sensação precisava ser percebida. Ali, o silêncio da água nos lembra que estamos entrando em um ambiente que não nos pertence — e que devemos tratá-lo com respeito.

Quanto mais fundo eu ia, mais a superfície parecia distante. E, paradoxalmente, quanto maior era a profundidade, maior precisava ser a minha tranquilidade. Foi nesse contraste que entendi uma das grandes lições do freediving: profundidade exige calma, consciência e respeito.


A Lagoa Misteriosa não foi apenas o lugar onde realizei um mergulho. Foi o cenário de um encontro comigo mesmo. Um daqueles momentos em que a experiência permanece na memória não pela quantidade de metros alcançados, mas pelo que aconteceu dentro de nós enquanto estávamos lá embaixo.

Porque o verdadeiro chamado da profundidade não é simplesmente descer.

É saber voltar.


ABISMO ANHUMAS: QUANDO O MERGULHO COMEÇA ANTES DA ÁGUA

Se o Rio Azul me mostrou a beleza da vida na superfície e dentro de um rio cristalino, o Abismo Anhumas levou essa experiência para outro nível — literalmente.

O Abismo é uma caverna localizada a cerca de 23 quilômetros do centro de Bonito. De cima, uma pequena abertura no solo não dá nenhuma pista da dimensão do que existe lá embaixo.


E é justamente aí que começa o desafio.

Para chegar ao interior da caverna, é preciso descer 72 metros por um sistema de rapel elétrico, o equivalente a aproximadamente 26 andares. A descida conduz diretamente a uma enorme caverna subterrânea, onde existe um lago de águas cristalinas.


Abismo Anhumas

É difícil explicar a sensação de começar a descer e perceber o chão desaparecendo aos poucos.

A luz vai ficando distante.

O silêncio aumenta.

E a caverna vai se revelando diante dos olhos.


É uma experiência que mexe primeiro com a cabeça antes mesmo de mexer com o corpo.


Porque, antes de entrar na água, existe outro desafio para vencer: o próprio medo.


UMA CIDADE DE CONES DEBAIXO D’ÁGUA

Lá embaixo, a sensação é de ter chegado a outro mundo.

O lago cristalino ocupa o interior da caverna e guarda formações de calcário que podem chegar a cerca de 20 metros de altura. São os chamados cones, que criam uma paisagem subaquática impressionante.


A água pode apresentar visibilidade de até 60 metros, fazendo com que essas formações apareçam diante dos olhos como uma verdadeira floresta submersa.


É impossível não pensar em quanto tempo foi necessário para a natureza construir aquilo.

Nada ali parece ter sido feito para impressionar.

E talvez seja justamente por isso que impressione tanto.

São milhares, talvez milhões de anos de processos naturais transformando água, pedra, minerais, tempo e silêncio em uma paisagem que hoje podemos contemplar.


No Abismo, a sensação de escala muda.


Você percebe o quanto somos pequenos diante da natureza.


MERGULHAR NO ESCURO

Para quem vive a apneia e tem uma relação tão próxima com a respiração, o Abismo Anhumas ganha ainda outra dimensão.

Entrar na água dentro de uma caverna é uma experiência completamente diferente de qualquer mergulho em mar aberto ou em um rio.


Ali, o silêncio é absoluto.


A luz é limitada.


E o corpo precisa confiar no treinamento.


A flutuação com máscara e snorkel permite conhecer o lago e observar as formações submersas. Para quem possui certificação adequada, também existe a possibilidade de mergulho com cilindro em profundidades maiores. Atualmente, o operador informa modalidades de mergulho de batismo de até 8 metros e opções para mergulhadores certificados que podem chegar a até 20 metros, conforme a modalidade.


E existe uma curiosidade que torna tudo ainda mais fascinante: embaixo d’água, os enormes cones de calcário parecem ainda maiores.


É uma verdadeira viagem para dentro da Terra.


O MEDO COMO PARTE DA EXPERIÊNCIA

Talvez uma das coisas mais interessantes do Abismo Anhumas seja perceber que o desafio não está apenas na atividade física.

Está na mente.


Você olha para baixo e sabe que vai descer 72 metros.


Mesmo com todo o equipamento e toda a estrutura de segurança, o cérebro entende a dimensão daquela altura.


E é aí que começa uma conversa silenciosa entre medo e confiança.

Você respira.

Se concentra.

Confia nos equipamentos.

Confia na equipe.

E começa a descer.

A cada metro, o medo vai dando espaço para a curiosidade.


E, quando você finalmente chega ao lago e olha ao redor, percebe que aquilo que parecia assustador lá de cima se transformou em uma das experiências mais bonitas da viagem.


É uma metáfora perfeita para a superação.


Às vezes, o maior desafio não é aquilo que está no fundo.


É encontrar coragem para começar a descer.


ESTÂNCIA MIMOSA: ENTRE CACHOEIRAS, FLORESTA E HISTÓRIAS

A Estância Mimosa foi outro daqueles lugares que fazem a gente desacelerar.

Localizada em uma área de natureza protegida, a propriedade oferece uma experiência de ecoturismo que combina trilha, mata ciliar, rios, cachoeiras, piscinas naturais, mirantes e observação da fauna.


O circuito de cachoeiras percorre a mata às margens do Rio Mimoso, revelando diferentes quedas d’água, piscinas naturais e cenários que parecem ter sido construídos para nos fazer esquecer a pressa.


Mas a Estância Mimosa não é feita apenas de água e floresta.


Ela também guarda histórias.


E talvez seja justamente essa mistura de natureza e memória que torne o lugar ainda mais especial.


Entre as cachoeiras, algumas carregam nomes, histórias e lendas que fazem parte da tradição local.


A LENDA DO SINHOZINHO

Uma das mais conhecidas é a história do Sinhozinho, personagem que faz parte da memória e do imaginário de Bonito.

A Cachoeira do Sinhozinho recebeu esse nome em referência à figura de um antigo curandeiro que, segundo a tradição oral, viveu às margens do Rio Mimoso.


As histórias sobre ele atravessaram gerações e misturam fatos, crenças e elementos lendários.


Uma das versões mais conhecidas conta que Sinhozinho teria prendido uma enorme serpente em uma caverna da região e colocado uma cruz no local para mantê-la aprisionada.


Não é possível separar completamente a história da lenda — e talvez seja justamente esse mistério que faça a narrativa sobreviver.


A cachoeira, hoje, carrega esse nome e essa memória.

Estar ali sabendo da história dá outro significado ao lugar.

A água continua sendo a mesma.

A floresta continua silenciosa.

As pedras continuam ali.

Mas, quando conhecemos a história, passamos a enxergar a paisagem também através da imaginação.

E isso é algo muito bonito nas viagens: descobrir que determinados lugares não são feitos apenas de geografia.

Eles também são feitos de histórias contadas por quem vive ali.


A CACHOEIRA DO DESEJO

Outra parada que chama atenção é a Cachoeira do Desejo.

E o nome já entrega a história.


Segundo a tradição local, quem faz um pedido diante da cachoeira pode ter seu desejo realizado.


Se é verdade?

Não sabemos.

Mas talvez essa seja justamente a graça.

Porque viajar também é permitir-se acreditar por alguns instantes.

Talvez o desejo não esteja na água, na pedra ou na gruta.

Talvez esteja na coragem de fazer um pedido e, depois, continuar caminhando.

E foi impossível não pensar em quantos desejos, sonhos e recomeços cabem dentro de uma viagem.


QUANDO A NATUREZA CONTA SUA PRÓPRIA HISTÓRIA

Cada cachoeira da Estância Mimosa parece ter uma personalidade.

Há a Cachoeira do Mutum, cujo nome faz referência ao mutum-de-penacho, ave silvestre encontrada na região.


Há o Saí-Andorinha, com suas águas rasas e uma espécie de hidromassagem natural.


Há a Cachoeira do Sol, com uma queda mais alta e uma gruta sob as rochas.


E há a Água Doce, entre tantas outras paisagens que aparecem durante o percurso.


São diferentes formas de água, luz, pedra, floresta e vida.


E, entre uma cachoeira e outra, a trilha se transforma também em uma oportunidade de observar aves, árvores e animais silvestres.


UM ENCONTRO DE BIOMAS

E há algo ainda mais impressionante em Bonito: a região está inserida em uma área de transição e influência de diferentes formações naturais brasileiras, incluindo ambientes associados ao Cerrado, à Mata Atlântica e ao Pantanal. 🌿

Essa característica ajuda a explicar a diversidade de paisagens, plantas e animais encontrados na região.


É como se diferentes mundos naturais se encontrassem em um mesmo território.


E foi justamente nesse cenário que vivi alguns dos encontros mais marcantes da viagem...


OS JACARÉS E UMA AULA DE APNEIA

E foi também em Bonito que vivi um dos encontros mais marcantes da viagem: os jacarés. 🐊

Observar esses animais tão de perto, em seu ambiente natural, é uma experiência que mistura respeito, curiosidade e um certo frio na barriga.


Eles parecem imóveis, quase parte da paisagem.


Mas basta observar com atenção para perceber a força e a presença daqueles animais.


Para alguém que vive a apneia, existe ainda uma curiosidade especial: observar como um animal perfeitamente adaptado ao ambiente aquático administra o próprio oxigênio.


O jacaré pode permanecer submerso por períodos prolongados graças às adaptações fisiológicas dos répteis, reduzindo sua atividade metabólica e o consumo de oxigênio quando está em repouso.


É uma verdadeira aula de eficiência biológica.


Na apneia humana, treinamos conscientemente respiração, relaxamento, tolerância ao desconforto e economia de movimento.


Diante de um jacaré, percebemos que a natureza já desenvolveu, ao longo de milhões de anos, estratégias extraordinárias para lidar com o mesmo elemento que tanto nos fascina: o oxigênio.


E estar na água, prendendo a própria respiração, enquanto se observa um animal que domina naturalmente aquele ambiente, cria uma experiência única.


Não se trata de desafiar o animal.


Muito pelo contrário.


É sobre respeitar sua distância, seus limites e o ambiente ao redor.


Na apneia, aprendemos a silenciar o corpo, controlar a respiração e administrar cada movimento.


Diante de um jacaré, esse controle ganha ainda mais significado.


SUPERAR LIMITES TAMBÉM É SABER RESPEITÁ-LOS

Bonito também me lembrou de algo que sempre fez parte da minha vida: superação.

No esporte, aprendi que ultrapassar limites não significa simplesmente ir mais longe.


Muitas vezes, significa exatamente o contrário.


Significa aprender a respeitar o próprio corpo.


Controlar a respiração.


Vencer o medo.


Confiar no processo.


Saber quando avançar — e saber quando parar.


No Rio Azul, esse aprendizado apareceu no silêncio da apneia.


No Abismo Anhumas, apareceu diante de 72 metros de profundidade e da necessidade de confiar.


Na Estância Mimosa, apareceu na caminhada, na água, na floresta e na capacidade de desacelerar.


E, diante dos animais, apareceu de uma maneira ainda mais simples: entender que a natureza não existe para nos desafiar. Nós é que precisamos aprender a entrar no espaço dela com respeito.


A natureza nos mostra que não precisamos dominar tudo.

Precisamos aprender a observar.

A escutar.

A respeitar.

A entender que somos parte de algo muito maior.


QUANDO A VIAGEM SE TRANSFORMA EM HISTÓRIA

No Rio Azul, mergulhei em águas que parecem impossíveis de tão transparentes.

Na Estância Mimosa, caminhei pela floresta, atravessei cachoeiras e conheci histórias que fazem parte da memória de Bonito.


No Abismo Anhumas, desci para dentro da Terra e mergulhei em um cenário que parece existir em outro planeta.


Diante dos jacarés, encontrei uma outra forma de compreender o silêncio, a respiração e a adaptação.


E, em todos esses momentos, voltei à mesma pergunta que acompanha minha própria trajetória:

“até onde podemos ir quando aprendemos a conhecer, respeitar e superar os nossos próprios limites?”


Talvez a resposta não esteja em chegar cada vez mais longe.

Talvez esteja em continuar tendo coragem de mergulhar.

Mergulhar na água.

Mergulhar na natureza.

Mergulhar nos desafios.

Mergulhar nas histórias.

E, principalmente, mergulhar na própria vida.


Bonito me fez lembrar que ainda existem muitos limites para superar, muitos lugares para conhecer e muitas histórias para contar.


E talvez seja exatamente isso que me move:

continuar mergulhando na vida, com coragem, curiosidade e fôlego para o próximo desafio.


“VERSUS”: QUANDO A EXPERIÊNCIA VIRA HISTÓRIA NA TV

Essa experiência também fez parte das gravações da série documental “Versus”, um projeto que reúne histórias, desafios, esporte, natureza e superação.

Foi muito especial viver Bonito também sob o olhar das câmeras — registrar não apenas os lugares, mas as sensações, os desafios e tudo aquilo que acontece quando colocamos o corpo e a mente diante de experiências que nos tiram da zona de conforto.


Porque, no fim, talvez seja justamente isso que uma boa história tenha de mais bonito: mostrar não apenas onde chegamos, mas tudo aquilo que precisamos enfrentar para chegar até lá.


Meu agradecimento especial a todos que tornaram esses dias possíveis e ajudaram a transformar essa experiência em uma história que agora também poderá ser contada na televisão.


BONITO FICOU NA MEMÓRIA

Pelas águas.

Pelas florestas.

Pelos animais.

Pelas lendas.

Pelas cavernas.

Pelos desafios.

Pelas pessoas que fizeram parte dessa experiência.


E, principalmente, pela sensação de que a natureza sempre tem alguma coisa nova para nos ensinar.


Na sensação de descer 72 metros para encontrar um mundo escondido dentro da Terra.


E na certeza de que, quando nos permitimos sair da zona de conforto, descobrimos que talvez sejamos capazes de ir muito mais longe do que imaginávamos.


Bonito foi, para mim, mais do que uma viagem.


Foi um mergulho.

Na natureza.

No esporte.

Na aventura.

Na superação.

E na própria vida.


🐊🤿💙

SÉRIE DOCUMENTAL “VERSUS” - Canal Off e Globo Play

EQUIPE

🎬 Direção: Rico Faissol

🎥 Produtora: Fernanda Becker

🤿 Fotografia subaquática em Bonito: Alexandre Socci


MAKING OF

📸 Imagens e agradecimentos:

@turismobonitoms — Secretaria de Turismo de Bonito

@paulacorreadebonito — Paula Correa

@rendzera2.0 — Renderson Menartzyki


 
 
 

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