Volta de Santa Catarina: uma fuga solo contra o vento e um desafio que foi muito além da corrida

Karol Meyer, atleta brasileira de alta performance, oito vezes recordista mundial em apneia e atleta Master de ciclismo, viveu em Florianópolis mais um capítulo de uma trajetória esportiva construída entre o fundo do mar, as trilhas do mountain bike e, agora, também as provas de ciclismo de estrada.
Algumas provas são disputadas apenas contra outras atletas. Outras são disputadas contra o vento, contra o cansaço, contra os próprios limites e, principalmente, contra aquela voz que pergunta: “Será que eu consigo?”
A etapa feminina de ciclismo de estrada da Volta de Santa Catarina, em Florianópolis, foi exatamente assim para mim.
Essa prova chegou em um momento muito especial da minha temporada. Eu vinha de dois Campeonatos Brasileiros Master de Mountain Bike, disputados na Bahia e em São Paulo, nas modalidades XCM e XCO. Voltei desses campeonatos com uma bagagem ainda maior e com a alegria de ter acrescentado mais dois títulos nacionais à minha trajetória.
Por isso, chegar à Volta de Santa Catarina e encarar uma prova de ciclismo de estrada teve um significado especial. Foi como se essa etapa viesse para coroar uma sequência de desafios no mountain bike e levar toda essa experiência para a estrada.
A Volta de Santa Catarina coroou uma sequência de conquistas que começou nas trilhas da Bahia e chegou às estradas de Florianópolis: dois títulos brasileiros Master de mountain bike e, depois, uma fuga solo no ciclismo de estrada contra o forte vento Sul.
Uma largada sem categorias e um desafio ainda maior
O desafio começou ainda antes da largada... No dia anterior sofri uma queda em treinamento que resultou em fratura de dedo, escoriações e perda de equipamentos. Além disto, nessa prova não havia categorias por idade: todas as mulheres largaram juntas, independentemente da faixa etária. Para mim, que sou atleta Master, isso tornou a disputa ainda mais interessante e desafiadora. Eu estava competindo em igualdade de condições com mulheres de diferentes gerações e precisava encontrar, dentro da minha experiência, do meu treinamento e da minha estratégia, as ferramentas para me manter competitiva.
O percurso previa 45 minutos de prova mais uma volta. E eu sabia que precisaria atacar.
Três ataques e uma fuga solo
Fiz três ataques durante a prova. Nos dois primeiros, testei o grupo, observei as reações e procurei o momento certo. No terceiro ataque, com apenas 10 minutos de prova, consegui abrir uma vantagem e decidi seguir.
Sozinha.
A partir daquele momento, a corrida mudou completamente.
Eu tinha pela frente mais 36 minutos de fuga solo, sem roda para proteger, sem revezamento e com um adversário que não dava trégua: o fortíssimo vento Sul de Florianópolis.
Era preciso pedalar, respirar, controlar o esforço e acreditar.
E a fuga funcionou.
Volta após volta, consegui manter meu ritmo e, mais do que isso, fui aumentando a distância. O que mais me marcou foi perceber que, mesmo depois de tantos minutos sozinha contra o vento, eu conseguia encontrar mais força, melhorar minha cadência e continuar evoluindo a cada volta.
Foi uma experiência muito especial porque mostrou, na prática, algo que venho construindo há muitos anos: resistência não é apenas uma característica física. É algo que se treina.
Do fundo do mar para a bicicleta
Grande parte da minha preparação física e mental nasceu de uma história que começou muito antes do ciclismo.
A apneia me ensinou a conhecer profundamente minha respiração, controlar o desconforto, administrar o esforço e permanecer tranquila quando o corpo começa a pedir para parar.
Essa experiência foi sendo incorporada ao meu treinamento esportivo e hoje faz parte da forma como encaro o ciclismo. Minha aptidão para suportar esforços prolongados, controlar a respiração e manter a concentração sob pressão também é resultado de anos de treinamento de apneia e de respiração.
É também dessa experiência que nasceu o Fôlego na Bike, um treinamento que leva para o ciclismo conhecimentos que desenvolvi ao longo da minha trajetória na apneia, trabalhando respiração, controle do esforço, resistência e consciência corporal.
Porque respirar melhor não significa simplesmente “colocar mais oxigênio para dentro”. É aprender a controlar o corpo quando o esforço aumenta, administrar a intensidade, manter a concentração e continuar produzindo quando a prova começa a ficar difícil.
Foi exatamente isso que senti naquela fuga.
O vento aumentava a resistência. As pernas acumulavam esforço. O tempo passava.
Mas eu tinha uma coisa que treino há décadas: a capacidade de permanecer no esforço.
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Obrigada, Volta de Santa Catarina
Quero também deixar aqui meu agradecimento especial à Volta de Santa Catarina por criar etapas amadoras destinadas ao público feminino.
Obrigada pela oportunidade de colocar mulheres de diferentes idades lado a lado na estrada, pela estrutura, segurança, organização e qualidade da cobertura do evento.
Tudo isso faz diferença.
Mais do que uma competição, iniciativas como essa ajudam a fortalecer o ciclismo feminino e a aproximar cada vez mais pessoas desse esporte maravilhoso.
Foi bonito ver essa energia tomando conta das estradas e reacendendo no coração de todo o Brasil a paixão que é viver o ciclismo.
Que isso cresça cada vez mais. Que tenhamos mais provas, mais mulheres, mais categorias, mais oportunidades e mais pessoas descobrindo tudo aquilo que uma bicicleta pode transformar dentro da gente.
Karol Meyer: ciclismo, apneia e alta performance
Karol Meyer é atleta brasileira de alta performance, oito vezes recordista mundial em apneia e atleta Master de ciclismo. Sua trajetória reúne conquistas no mountain bike, no ciclismo de estrada e na apneia, modalidades nas quais desenvolveu uma preparação baseada em resistência, controle respiratório, concentração e capacidade de superar limites. Essa experiência também deu origem ao Fôlego na Bike, projeto que leva os conhecimentos de respiração e controle do esforço para o treinamento de ciclistas.
E talvez seja justamente isso que mais me emociona nessa sequência de provas: olhar para trás e perceber que cada campeonato, cada treino, cada quilômetro de mountain bike, cada mergulho em apneia e cada desafio foram construindo a atleta que chegou àquela estrada em Florianópolis pronta para acreditar na própria força.
Dois títulos nacionais na bagagem. Uma fuga solo contra o vento. E uma prova de estrada para coroar esse momento.
Porque, no final, aquela fuga não foi apenas uma fuga contra o vento.
Foi uma lembrança de que experiência, treinamento, respiração, estratégia e coragem podem transformar um limite em possibilidade.
Obrigada, Volta de Santa Catarina. Obrigada, Florianópolis.
E que essa paixão pelo ciclismo cresça cada vez mais.





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